foto de carolyn no pexels

para fins dessa alegoria, me imaginei como um vaso. não um aquário, pois não sou tão transparente, não uma jarra pois não sou tão bem esculpida – talvez um vaso torto e confuso feito por um amador (mas que ainda conta como arte).

um vaso cheio d’água porque é como vejo minha alma, meu calor, minha paixão. é o que me dá vida.

também não é jarra porque não quero simplesmente derramar a água de forma graciosa e com calma. não é algum vaso que possa rachar e deixar cair pingos, não. ele tem que explodir de uma vez só.

está árido aqui fora e chega a ser irresponsável da minha parte querer continuar com toda a água só para mim.

eu já deixei cair pingos e meu erro foi querer recolhe-los de volta. ou então achar que não tinha sobrado água aqui dentro. mas ah se sobrou, e agora, anseio pelo momento em que vou acumular tanta que a estrutura não vai ter opção senão ceder.

venho fortalecendo essa estrutura, também, pra não deixar que mais água saísse. reforçando-a com ferros e pilares e transformando-a numa prisão de segurança máxima. mas chegou o momento do golpe de estado.

e tem outra: não dá pra botar mais água num vaso já cheio. tem que derrubar, expelir tudo pra dar espaço pra mais.

nada na natureza é constante. sabe o que é constante? aquilo que é construído pelo homem. estudado e aperfeiçoado por anos para que não traga surpresas. mas eu não sou feita de homem, sou feita de terra. nunca poderia ser constante; estaria traindo minha própria natureza (literalmente).

vou quebrar e ver, finalmente, que isso é a vitória e não o fracasso. o que mais tem por aí é barro, cola e materiais para me reconstruir. e água, água de monte pra me encher de volta.

(no momento meu estado está em racionamento de água, mas o ignoro para não estragar minha analogia).

Escritora que ainda não achou o conjunto de letras que a define. https://alexiabhetka.com