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Mulheres realizam atos em luta por igualdade em Curitiba no Dia Internacional da Mulher em março de 2018. (Gibran Mendes/ Fotos Públicas)

Este não é um texto onde eu vou falar “não me dê flores, não me dê chocolate, não me dê desconto em produtos femininos”. Não vou nem comentar sobre o quanto me entristece ver marcas usarem esse dia para fingir que se importam com equidade quando o modo como tratam suas próprias funcionárias diz o contrário.

Eu odeio o Dia da Mulher porque eu não queria que a gente tivesse que fazer disso uma ocasião especial. Eu não quero ser especial, quero ser igual.

Eu odeio o Dia da Mulher porque ele não faz absolutamente nada pelos direitos iguais. Ele atrai atenção de maneira fútil, superficial e passageira.

Eu odeio o Dia da Mulher porque eu não queria que existisse um dia que me obriga a lembrar que, a cada 7 horas, uma mulher é morta por feminicídio no Brasil. O Coronavírus nem me assusta porque, tendo nascido mulher no Brasil, eu já corro mais perigo do que com essa nova gripe de primeiro mundo.

Eu odeio o Dia da Mulher porque eu não quero abrir o Facebook e ver um post enfeitado com flores dizendo o quanto eu sou forte e bela quando tem mulheres tendo seus genitais mutilados sendo que não escolheram nascer com eles.

Eu odeio o Dia da Mulher porque eu não quero ser forte e resistente sempre. Eu quero poder ser fraca.

Eu odeio o Dia da Mulher porque a cara do feminismo não é uma mina padrão sorrindo bem bonita de batom vermelho. A cara do feminismo é a mulher que não pode encostar em figuras religiosas enquanto está menstruada porque ela está impura e não é digna. A cara do feminismo é aquela mulher que nem tem tempo pra parar e pensar no que é o feminismo, porque ela trabalha o dia inteiro, cuida dos filhos sozinha, apanha do marido e não tem condições de sair desse ciclo.

Eu odeio o Dia da Mulher porque eu sou, sim, uma força da natureza, mas não são tuas palavras vazias pra ganhar likes que vão fazer isso realmente ser reconhecido pela sociedade. São as leis, a nossa cultura, as nossas ações de todos os dias.

Eu odeio o Dia da Mulher porque você não pode dizer que ama mulheres só porque aquelas que tem peito e bunda satisfazem tuas fantasias, mas aquelas que não se relacionam com homens, não cabem no teu molde e não sorriem pra você são vadias. Você só ama teu próprio ego, e isso tá longe de ser equidade.

Eu odeio o Dia da Mulher porque ser contra assassinato, estupro, difamação e humilhação pública é considerado mimimi até por autoridades públicas.

Eu odeio o Dia da Mulher porque eu não me sinto mulher nesse dia. Eu me sinto mulher quando tô andando sozinha na rua, percebo um carro me seguindo e o coração dispara. E naquela hora eu sei que sou mulher, e que não sou nada além disso.

Eu odeio o Dia da Mulher porque passei horas procurando uma foto pra esse post que não fosse uma mulher sorrindo, segurando flores ou sendo tudo o que agrada um homem. O problema é mais embaixo, porque as fotos que nos representam nem chegam a ser produzidas.

Eu odeio o Dia da Mulher porque a mulher em situação de risco não deveria estar feliz, não deveria estar sorrindo, porque olha, ela vive tanta desgraça, coitadinha, que dó dela, que vida difícil. Mas não pode ficar séria também, porque fica tão mais bonita quando sorri.

Eu odeio o Dia da Mulher porque nesse dia a gente é tudo e nos outros a gente é nada. Uns fazem um esforço descomunal pra tirar da boca um elogio só no dia 8, pra depois voltar a se sentir o centro do universo e não usar um segundo do seu privilégio a favor de quem tem menos.

Eu odeio o Dia da Mulher porque hoje 96 mulheres serão estupradas na Índia. É Dia da Mulher lá também, tecnicamente.

Eu odeio o Dia da Mulher porque Frida Kahlo está estampada por tudo, em camisetas, bolsas, posts e capinhas de celular, mas qualquer artista indígena, bissexual, com deficiência e que não se depila, mesmo em 2020, seria marginalizada e esquecida.

Eu odeio o Dia da Mulher porque ainda preciso explicar os motivos do porquê eu odeio o Dia da Mulher.

Eu já tentei amar o Dia da Mulher.

Eu queria amar o Dia da Mulher.

Eu queria acordar todo 8 de março me lembrando do quanto já conquistamos e do quanto outras antes de mim lutaram para que eu estivesse na posição tão privilegiada onde estou hoje. Mas só consigo enxergar o quanto ainda falta, e o quanto 24 horas de um teatro coletivo de amor ao feminino não estão ajudando.

Parem de nos matar. Parem de nos estuprar. Nos tratem como seres humanos — todas nós; as negras, as lésbicas, as com deficiência, as deprimidas, as pobres, as gordas, as do terceiro mundo, as que não performam feminilidade, as que não querem transar com você, as que não estão aqui para te satisfazer.

P.S.: Deixo como indicação o Coletivo Feminista de Sexualidade e Saúde, onde você pode se informar e contribuir para o atendimento médico de mulheres marginalizadas.

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Escritora que ainda não achou o conjunto de letras que a define. https://alexiabhetka.com

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