karolina grabowska no pexels

Quero ser especial e sei que não sou a única. Quero ser aquela pessoa que os outros lembram de cara quando o outro menciona numa conversa. Aquela que se destaca, aquela esquisita, aquela diferente. “Aquela que ___” com uma coisa que só eu fiz, porque algo como “aquela que gosta de café” não limitaria em nada a busca pela pessoa sendo discutida.

Às vezes queria ter outros pintores favoritos, que não Van Gogh e Frida, porque essa é a escolha mais óbvia que existe. Ou ter a chance de explicar que meu apreço por Vincent não é porque ele era um artista torturado, e muito menos pela teoria ridícula de que ele comia tinta amarela porque a cor representa a felicidade e ele achou que poderia ingerir o sentimento como fosse um ingrediente na tabela nutricional. Queria explicar que eu vejo em cada pincelada uma tentativa de se prender à vida, uma tentativa de fazer limonada com limões azedos que foram pisados e deixados na feira. Que o que ele fez alegrou os normais e confortou os loucos. Que ele nunca chegou onde queria em vida e eu tenho medo de ser assim. Que quando vi seus quadros ao vivo senti um magnetismo inexplicável e não conseguia me desvincilhar daquela nuvem de sentimentos, como se um holandês de 164 anos estivesse falando comigo através das garras do tempo e dizendo “não está tudo bem, e talvez nem fique. mas eu fiz isso aqui e consegui conversar com você em 2017”.

Que eu amo Vincent porque ele fez máquinas do tempo.

Mas de que adianta? Porque é que o conhecimento que finjo ser oculto me faria especial, me faria diferente? Que tipo de pessoas eu atrairia e por que estou atrás delas (imagina se atraio esquerdomachos)? Em que patamar eu me coloco quando respiro fundo e digo que sei que Frida odiaria as blusas com ela na estampa porque isso vai contra tudo que ela acredita, que sou uma das poucas (rá!) detentoras do conhecimento de que ela provavelmente se apaixonou por Josephine Baker, mesmo isso estando a um Google de distância, ou que foi aos 6 que contraiu poliomelite, sendo que isso é dito no seu filme biográfico? Imagina o que quem sabe mais que eu está pensando agora.

E outra: em que patamar estou colocando quem não sabe disso?

As pessoas não sabem porque não querem e isso não faz com que elas sejam menos merecedoras de apreciar aquela arte. Para mim, apreciar a arte está intrínseco a apreciar o artista, mas pra outros pode não ser assim. Ademais, esse não era pra ser um texto sobre arte.

Mas quem sabe eu entrar para o mundo artístico foi justamente uma maneira de me sentir esse floquinho de neve inigualável.

“Sua escrita me inspira”, “nunca vi algo assim”, “você é uma artista nata”. Aquelas frases que enchem e transbordam o seu ego — e que, se você não ouvir, olha só, ainda tem uma saída: vira o artista torturado, e isso é às vezes ainda mais especial.

Agora, o porquê eu realmente não sei. O que tem de tão especial em ser especial? (Você acharia que uma escritora saberia o mínimo sobre usar sinônimos num texto delongado.)

Sempre posso me referir ao apreciado recurso de culpar Hollywood, também. Que mulher nunca tentou mudar a própria essência para ser mais manic pixie dream girl? E agora que ela saiu de moda, somos uma casca malfeita que se critica tantos pelas partes que condizem quanto as que desviam desse padrão. Eu tentei me encaixar, claro que tentei, e o objetivo ainda não foi todo apagado da minha mente. É como se você estivesse andando por uma estrada e, quando chega na metade do caminho, descobre que um castelo mal-assombrado te aguarda, então você para. Mas, se for voltar por onde veio, vai ter uma fila interminável de pessoas te julgando. Tipo quando você percebe que está indo na direção errada e sabe que outras pessoas perceberam, então você dá uma disfarçada antes de dar meia volta e seguir caminho morrendo de vergonha. Sendo que ninguém tá nem aí, até porque eles podem ter acabado de fazer a mesma coisa e achar que você está as julgando, mas você está ocupado com suas próprias noias.

Bem, o conceito ter sido apreciado e depois descartado faz todo o sentido. Se todo mundo for diferente, ninguém é diferente. E se o conceito de especial muda toda hora, a gente tem que mudar também. Eu cresci querendo ser especial e me disseram que, pra isso, eu tinha que ler Nietzsche e ver Godard. Só que era dava muito trabalho e eu desisti. Mas ir contra a maré não me fez única, também.

Se você gosta de algo clichê, às vezes se encaixa num desses dois tipos: o que por vezes sente vergonha de gostar de algo tão básico, e o que julga os outros porque acha que é mais fã e sabe mais coisa e entende aquilo de verdade e não só de um jeito superficial. Eu sou ambos.

Aí quando tem algo realmente oculto que você aprecia, você está sozinho. Se aqui estamos falando de arte, arte é algo feito pra apreciar junto, né? É claro que você pode ter uma experiência individual com ela e é incrível fazê-lo, mas saber da visão dos outros e compartilhar dessa emoção, pra mim, faz parte da jornada.

Acho que a conclusão é que eu não quero ser especial. Quem é especial é julgado como pretensioso. E no ordinário tem um estranho conforto. Um conforto em considerar tatuar algum quadro de Van Gogh mesmo sabendo que nunca poderia decidir num só desenho. De ponderar cravar em mim, então, uma das minhas frases preferidas dele, mas não me sentir no direito, porque apesar de deprimida não sou suicida. De pensar que as coisas bonitas que Frida disse poderiam muito bem transformar minha pele num livro, todo coberto.

Eu quero o conforto de criar coisas ordinárias que aquietam a minha mente. Não a pressão de ter minhas frases vendidas no Etsy daqui a 50 anos.

Escritora que ainda não achou o conjunto de letras que a define. https://alexiabhetka.com

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