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madison inouye no pexels

eu me acordo todos os dias no último minuto possível. talvez numa tentativa de alongar os sonhos, até agora a fonte mais surpreendentemente criativa para novas histórias (o que não vem ao caso agora). ao me levantar, abro o guarda-roupas e aí tenho que tomar a primeira decisão da manhã:

que palavras vou vestir hoje?

sabe, para mim, escrever bem é como vestir-se bem. ambos são coisas que eu gosto de praticar, que não me importo em gastar o tempo que for praticando, aperfeiçoando. buscando referências, vendo como outros fazem – curiosamente, também nos dois casos me perguntando se realmente faria melhor com mais dinheiro ou se é só falta de querer mesmo. eu quero ser bem vestida, e quero ser bem escrita.

eu tenho uma ideia na cabeça, uma mensagem que preciso passar. ela tem de mostrar quem sou, como me sinto, o que quero dizer. tem que se encaixar no momento, no local, na situação. depende de quem vai recebê-la.

eu gosto de colocar a primeira versão do parágrafo ali, parir ela, e então ir lapidando até encontrar a escultura (não me deixem escorregar para outra metáfora, eu faço isso demais). troco a cor da blusa, adiciono um casaco, penso em qual batom vai complementar a coisa toda. é assim quando procuro uma palavra mais bonita, reformulo a frase para que fique mais clara, troco sinônimos para evitar cacofonias.

é algo que falar ao vivo não permite — a não ser que eu dê a sorte de a minha cabeça despejar os pensamentos de um jeito já satisfatório. um texto que li recentemente me fez, inclusive, encontrar essa nova explicação para meu amor pela escrita. às vezes, quando preciso falar o que dá na telha e não posso editar meus pensamentos antes que eles sejam soltos ao mundo, é como se tivesse colocado todas as minhas roupas ao mesmo tempo. as de inverno e verão, as coloridas e as sóbrias, as básicas e as questionáveis. e quando recebo um olhar atravessado, tento me justificar: peraí, eu posso explicar. é que tenho muitos estilos e gostos, olha; se você olhar bem de perto vai ver que essa camiseta e essa calça formam um estilo anos 90, bem casual e chique. mas o vestido aqui por cima está tentando dizer que eu posso ser gentil e fofa também.

talvez devesse me empenhar mais nos looks mesmo estando confinada à casa em plena pandemia. pode ajudar o cérebro a raciocinar dessa maneira e me fazer escrever.

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me ajudaria, também, a parar de me importar com opinião dos outros. modéstia à parte, já sou bem boa nisso (ou estaria eu em negação?), mas sempre dá pra melhorar. ninguém vai me ver então eu posso usar o que der na telha, o céu é o limite. nenhuma norma social para atender e nem sequer a desculpa de que talvez seja desconfortável, muito frio, muito quente. o backspace está logo ali, no quarto ao lado.

formar meu próprio conjunto de peças e acessórios é um exercício para escrever por mim mesma. venho aprendendo a apreciar mais o processo do que o resultado; já que o segundo não está em minhas mãos. e o problema é que a escrita, como profissão, realmente depende bastante da opinião dos outros. não é uma ciência exata, não há certo ou errado. só achismos de gente que tem maior autoridade em achismo que você. e você tem que torcer para que muitas pessoas tenham muitos achismos a seu favor.

tem também a coisa de tentar ser quem não somos, né? aqui, agora, por exemplo. eu queria ser alguém que toda hora tem outra ideia mirabolante de texto poético que faz sucesso no medium, mas a verdade é que preciso espremê-los de mim como de uma laranja que não admite não ter mais suco. talvez seja por isso que gosto de comprar roupas online, também — porque as ideias de combinações entre peças que tenho à disposição já acabaram.

queria poder comprar novas palavras.

mas o que importa, no fim do dia, é que sei me divertir com as duas coisas. ah, a alegria de abrir o guarda roupa e ver o que vai com o quê, qual combinação eu nunca fiz antes, como seria se eu usasse tal peça de modo diferente de seu propósito original. a alegria de formar frases, parágrafos, textos, roteiros, e ter a chance de evocar emoções, sensações, só com um arranjo específico de letras, pontuações e espaços em branco.

seria uma arte minimalista se colocada nesses termos, mas pode ser adornada, ah se pode. pode até ficar over, ficar kitsch. existem diferentes escolas de pensamento, modas e tendências. os gostos mudam ao longo do tempo também — o desgosto ao ver uma foto sua na adolescência é por vezes o mesmo de quando você encontra um texto antigo (i do the cringe — ótima música de halloween, a propósito, oportuna para o momento).

pensando no quanto arrisco, porém, é onde encontro diferenças. este próprio texto que vos fala não feito numa só sentada. eu nunca deixaria a montagem de um look para mais tarde, então por que o faço com textos? não faria sentido eu, hoje, começar a pensar numa roupa para daqui a 3 dias. continuo precisando de uma para hoje; vou lá, monto e saio. se mais tarde me arrepender, azar. se for ridículo daqui a 5 anos, problema da aléxia do futuro.

existe um momento de criação e edição. um processo imaculado, um fluxo onde você entra e se entrega aos seus caprichos e a crítica interior, os dois numa batalha constante. mas, quando termino de vestir, fecho o guarda-roupas e deixo esse furacão lá dentro. saio porta fora e o que for para ser, será. com as palavras, me vejo saindo e voltando uma porção de vezes, tropeçando em letras, tentando ignorar conjunções usadas à exaustão. é um ciclo que eu pareço nunca fechar de forma consciente. talvez por isso a mente nunca descansa.

aqui está então. essas são as palavras que vou vestir hoje. me olho no espelho mais uma vez e dá vontade de tirar uma selfie. quem sabe uma da qual a eu de 2030 teria vergonha, mas eu não tenho como conversar com ela agora. e ela deve bem entender que, se eu ouvisse que aquilo está estranho e eu deveria repensar, ia sorrir para mim mesma ao constatar que não só criei algo que me satisfaz, mas também consegui perturbar a ordem.

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Escritora que ainda não achou o conjunto de letras que a define. https://alexiabhetka.com

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