emiliano arano no pexels

queria chorar mas não consigo. é uma sensação estranha. não tem exatamente algo de errado, mas nem tudo está certo também. tem algo faltando, e quem sabe o que falta não é mergulhar num rio que eu mesma causei até que eu caia no sono pela exaustão?

queria chorar porque quem sou eu se não sou mais alguém que tem epifanias emocionais que se liquidificam a cada tantos dias?

quem diria que antidepressivos trariam desvantagens.

(todo mundo. todo mundo diria, isso foi só para efeitos poéticos.)

queria chorar porque é melhor que vazio. e às vezes é até melhor do que “eu tô bem, e você?” se repetindo por semanas e meses. porque não pode estar tudo bem, não é possível. porque foram tantos anos em que nada estava bem, em que o urso gigante pisava em meu peito e me mantinha no chão que agora não sei o que fazer com toda essa liberdade.

agora que o urso me libertou, mesmo ainda estando ali. seguro a mão dele e vou? o abandono? peço por um abraço um pouquinho mais apertado do que deveria?

talvez isso possa ser considerado síndrome de estocolmo.

talvez porque chorar era minha única válvula de escape e, vamos ser sinceros, é tão mais simples do que estar em constante conexão com suas próprias emoções, e refletir o porquê de cada ação e reação, e debater sobre cada palavra, e manter uma alimentação saudável e fazer exercícios e praticar o detox digital. não fazer nada sem explicar para si mesma.

como tomar um analgésico a cada tanto de horas para um osso quebrado, porque cirurgia e fisioterapia e recuperação custariam muito tempo, dinheiro e energia.

chorar é poderoso e é efetivo, não podemos negar – não estou dizendo que é a solução de longo prazo, mas ah, se é uma solução. quando vemos uma cena emocionante na tv, a gente para pra analisar o que aquilo significou ou a gente chora igual um nenê?

esperto é o nenê. puta maneira de ecoar seus sentimentos sem ter que pensar sobre eles.

é instintivo, é normal. faz dizer: eu estou sentindo isso, e eu estou sentindo tanto que está vazando pelos meus poros. é lindo se parar pra pensar (e ignorar o catarro e olhos inchados).

engraçado agora pensar que estou comparando duas coisas muito importantes para mim: a água e as palavras. ambas são poderosas, movem o mundo, trazem vida, trazem paz (ou então a guerra). mas a água não pede nada de ti, ela só te acolhe. te convida e te abraça. ela não vai nas tuas entranhas e força que você saia de lá, que você olhe para si mesma, nua e sem poder sair.

a água perdoa muito mais. ela não faz perguntas, só traz respostas. talvez as palavras até a chamariam de má influência.

mas não consigo ouvi-las em alto mar.

Escritora que ainda não achou o conjunto de letras que a define. https://alexiabhetka.com

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