uma relação daquelas que não quebra

Foto de Inga Seliverstova no Pexels

não é novidade e muito menos particularidade dizer que me sinto desconexa. é 2021, já se passa mais de um ano desde o início da pandemia, e a situação no brasil só piora. batemos recordes que nenhum país inveja e figuramos em primeiro lugar em listas das quais deveríamos ter vergonha. no início desse ciclo infernal, me lembro da tentativa em ver as coisas pelo lado bom: “quem sabe, estando em casa, consigo escrever mais e focar nas minhas produções.” risível se não fosse trágico.

não só não estou focada na escrita como não estou focada em nada. parece que a vida está passando, e eu, só assistindo. um pouco disso é necessário; os números que ouvimos nas notícias são mais seguros se não deixamos nossa mente registrar o que eles realmente significam.

eu e a arte sempre fomos um vai-e-volta. momentos íntimos, em que não nos desgrudamos, outros em que passamos semanas, meses sem nos falar. agora, eu lembro dela quase como se fosse uma ex, mas a verdade é outra: ela está aqui até que a morte nos separe.

arte sempre está ali por mim, sempre esteve. não posso negar, é só olhar as evidências. e muitas vezes me sinto longe dela, mas isso não quer dizer que ela não esteja ali. às vezes está mais queitinha, adormecida, mas não foi embora. às vezes não se mostra como eu queria; aquela dança, aquela explosão de cores na alma, ideias fluindo até a ponta dos dedos e criando matérias memoráveis — mas sim como uma voz que expressa minha opinião sobre um filme, daquelas que fico tão animada falando que até deixa a pele avermelhada.

tem aquela lenda japonesa sobre o fio vermelho do destino; diz que duas pessoas destinadas a ficarem juntas têm um fio invisível que liga uma a outra. não importa o quanto esse fio se estique, torça ou se embole, ele não vai se romper. acho que eu e a arte somos assim.

arte me faz sentir livre. livre, livre, livre. e mesmo quando não estou criando, quando me sinto presa, ela é minha libertação. ah, faz tanto sentido a arte ser um substantivo feminino, né? em toda sua complexidade, adoração, talento, efemeridade, impiedade.

sou livre e não posso ser outra coisa.

também sinto que fui desaprendendo o que era arte — ou melhor, o que era minha relação com ela — ao longo dos anos. estranho o conceito de desaprender, mas é, eu via o escrever como uma linda inspiração em que ideias me vinham, eu as materializava e sempre tinha quem a adorasse. mas no momento em que o estalo “você poderia viver disso” me veio, PUF, tudo mudou. agora arte era uma obrigação, um meio de sustentação (mas só se eu fosse excelente nele e trabalhasse em cima disso 22 horas por dia). então nos afastamos, eu e arte, um lindo casal com tanto potencial, mas que nadou nadou e morreu na praia.

o que vem ajudando é mudar essa própria visão, sabe. arte não está restrita a eu sentada diante de um documento do word, escrevendo o próximo best-seller que vai me figurar em stories de famosos e me fazer finalmente adentrar a panelinha de jovens escritores brasileiros. blasfêmia até, eu colocar “arte” e “restrita” na mesma frase. é clichê mas a arte está em tudo. dia desses vi uma entrevista com uma roteirista que mostrou que o fogo está aqui dentro ainda. meu coração bateu mais rápido, eu concordava com ela e chegava a pausar o vídeo para inserir minhas próprias opiniões sobre o assunto para um público imaginário.

a arte é muito mais clemente que eu. se eu passo uns dias sem, já parece que não a mereço mais, já vou dizendo adeus e abrindo o linkedin em busca de alguém que queira uma jovem deprimida que escreve razoavelmente. mas ela não vai embora. vê meus erros e ainda está lá, de braços abertos, esperando que eu vá cometer os próximos com ela. não sei por que ela ainda me quer.

mas eu estou voltando. eu vou voltar pra ti, eu prometo.

até porque você não é daquelas que se esquece ou se supera.

Escritora que ainda não achou o conjunto de letras que a define. https://alexiabhetka.com

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